Ensaio filosófico

Entre a familiaridade e o estranhamento na imagem de pensamento “A luz”, de Walter Benjamin

Brunno Khouri Delpin Borges·22 de outubro de 2026·6 min de leitura

Graduando em Filosofia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e pesquisador de iniciação científica, com pesquisa dedicada à filosofia trágica de Friedrich Nietzsche. Desenvolve estudos nas áreas de estética, filosofia, Nietzsche, literatura e psicanálise

Kelly (1946), pintura de Sidney Nolan.
Sidney Nolan, Kelly (1946).

A luz2

Em um povoado estrangeiro, eu estava sozinho pela primeira vez com a amada. Aguardava diante de meu dormitório, que não era o dela. Pretendíamos fazer um passeio noturno. Aguardando, subia e descia a rua do povoado. Lá vi, entre árvores, uma luz à distância. “Esta luz”, pensei comigo, “não diz nada aos que toda noite a têm diante dos olhos. Talvez pertença a uma torre ou a um sítio. A mim, contudo, aqui estrangeiro, ela diz muito.” E com isso dei meia-volta para seguir de novo a rua. Assim passei um bom tempo, e toda vez, ao me voltar após um instante, a luz, através das árvores, atraía meu olhar. Mas então aconteceu que ela me obrigou a parar. Isso foi logo antes de reencontrar a amada. Virei-me novamente e reconheci: a luz, que eu tinha visto no nível da terra, era a da Lua, que se erguia devagar sobre as copas distantes. (Benjamin, 1932–1933, p.757).

Após sucessivas leituras, não apenas desta imagem de pensamento, mas também de outros escritos de Walter Benjamin, algo em minha própria percepção do texto se modificou. Inicialmente, acreditava que A luz tratava da percepção em si, tomando a luz como uma possível metáfora da experiência perceptiva. Entretanto, ao retornar ao texto, percebi que essa interpretação, embora não estivesse inteiramente equivocada, permanecia insuficiente. O que antes se apresentava como uma reflexão acerca da subjetividade da percepção passou a revelar outra possibilidade de investigação: a relação entre percepção, experiência e história.

Para tornar visível esse movimento de reflexão, considero importante recuperar minha primeira interpretação, não como algo a ser descartado, mas como o ponto de partida de uma compreensão que, ao longo das leituras, passou por transformações.

Tomando como objeto de análise a imagem de pensamento de Walter Benjamin, “A LUZ”, a primeira percepção que se tem ao lê-la é a de que se trata de relatos de um diário ou de uma simples constatação cotidiana. Entretanto, o que importa nesta análise é aquilo de que o texto fala e que, para aqueles que, por Saturno, foram afetados, pode ser desvelado: a percepção. Não a percepção como algo a ser explicado ou definido, mas a própria percepção e sua subjetividade.

Algo que se revela ao observar a imagem de pensamento de Benjamin são as diversas formas assumidas pela luz, nas quais a própria ideia de percepção se desvela. Ao adentrar o texto, as mudanças nas formas da luz tornam-se visíveis, como se lê no trecho: “[...] A mim, contudo, aqui estrangeiro, ela diz muito.”

Agora, entretanto, parece-me que não se trata apenas da percepção enquanto experiência individual, mas também das condições pelas quais ela se constitui. Benjamin escreve: “Esta luz [...] não diz nada aos que toda noite a têm diante dos olhos”. Nessa passagem, o narrador estabelece uma distinção entre sua própria experiência e aquela que imagina pertencer aos habitantes do povoado. Para aqueles que convivem cotidianamente com a luz, ela talvez não desperte qualquer interesse; para ele, que se encontra em território estrangeiro, essa mesma luz adquire um significado particular.

O que chama minha atenção é que a diferença não se encontra necessariamente na luz, mas na relação que os sujeitos estabelecem com aquilo que percebem. A familiaridade com determinado fenômeno pode torná-lo tão habitual que sua presença deixa de despertar nossa atenção. Por outro lado, o estranhamento diante daquilo que não conhecemos pode fazer com que algo aparentemente comum se apresente de maneira inteiramente distinta. Quando o narrador afirma “A mim, contudo, aqui estrangeiro, ela diz muito”, parece-me que sua condição de estrangeiro não é um detalhe secundário, mas um elemento fundamental para compreender a experiência que se desenvolve.

Ser estrangeiro, nesse contexto, significa encontrar-se diante de um mundo cujas referências ainda não são inteiramente familiares. O narrador desconhece a origem daquela luz e imagina que ela talvez pertença a uma torre ou a um sítio. Entretanto, mesmo sem reconhecer aquilo que observa, a luz já lhe diz alguma coisa. Ela atrai repetidamente seu olhar, interrompe seu percurso e, por fim, obriga-o a parar. Portanto, aquilo que é percebido já possui um significado antes mesmo de ser reconhecido ou identificado.

É nesse ponto que encontro uma possível aproximação com a historicidade da percepção. Se nossa maneira de perceber o mundo depende também das experiências que adquirimos, dos espaços que habitamos e das relações que estabelecemos com aquilo que nos cerca, então a percepção não pode ser compreendida como uma atividade exclusivamente natural. Ela se constitui também a partir de condições adquiridas ao longo da existência. Isso, por si só, ainda não demonstra a historicidade da percepção no sentido mais amplo desenvolvido por Benjamin, mas permite levantar a questão de como as condições históricas, sociais e culturais participam da organização de nossa experiência sensível.

Por fim, o desfecho da imagem de pensamento introduz outra questão. Após observar repetidamente a luz, o narrador finalmente reconhece que aquilo que julgava estar próximo ao nível da terra era, na verdade, a Lua, que lentamente se erguia sobre as árvores. O reconhecimento modifica sua compreensão do fenômeno, mas não elimina a experiência que o antecedeu. A luz já o havia atraído, já lhe havia dito muito, mesmo quando sua origem permanecia desconhecida.

O que se transforma, portanto, não é apenas a posição aparente da luz, mas também a compreensão que o narrador tem daquilo que percebe. A experiência inicial é reinterpretada à luz de um reconhecimento posterior. Curiosamente, aquilo que se revela ao final é um fenômeno tão familiar quanto a própria Lua. Entretanto, naquele lugar e naquelas circunstâncias, ela pôde ser percebida de maneira diferente, como se aquilo que já era conhecido pudesse novamente se apresentar como desconhecido.

Assim, considero que A luz permite investigar não apenas a subjetividade da percepção, mas também sua relação com a experiência adquirida, a familiaridade e o estranhamento. Se aquilo que percebemos não se apresenta independentemente das condições em que vivemos, torna-se possível perguntar de que maneira nossa própria história, individual e coletiva, participa da constituição do mundo sensível.

Talvez o aspecto mais significativo da imagem de pensamento não esteja simplesmente no fato de o narrador reconhecer a Lua, mas na experiência que se desenvolve antes desse reconhecimento. Afinal, se a luz já era conhecida, o que fez com que, naquele momento, ela pudesse dizer tanto? A imagem parece deixar em aberto precisamente essa questão: não apenas como percebemos aquilo que nos é desconhecido, mas como aquilo que julgamos conhecer pode voltar a se apresentar diante de nós como algo ainda não percebido.

Notas

1 NOLAN, Sidney. Kelly. 1946. Esmalte sobre cartão, 63,5 × 76,1 cm. Canberra Museum and Gallery, Canberra. Disponível em: https://artsandculture.google.com/asset/kelly-0006/dwFQUifhc_qcXw. Acesso em: 21 out. 2026.

2 “A LUZ”, com tradução realizada pelo Dr. Marco Antonio Valentim do Walter Benjamin, Gesammelte Schriften, IV-2, p. 757:1.

Palavras-chave: Walter Benjamin; Estética; Imagem de pensamento; Percepção; Experiência sensível; Estranhamento; Historicidade da percepção