Ensaio filosófico

Noite estrelada e céu cadente

Luis Bytner·31 de maio de 2026·9 min de leitura

Sou estudante de Filosofia e me aventuro escrevendo alguns textos que analisam fatos da atualidade e que se confundem com crítica filosófica. Estes textos estão longe de apresentar respostas definitivas, mas se propõe ao questionamento e à crítica. Questionar é um bom adubo para a consciência, e isso é o que nos leva adiante.

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Então morreremos, um atrás do outro, tanto os brancos quanto nós. Todos os xamãs vão acabar morrendo. Quando não houver mais nenhum deles vivo para sustentar o céu, ele vai desabar.

Davi Kopenawa

Eu vi estrelas cadentes (não apenas uma, mas muitas) riscando o céu profundo de uma noite brilhante enquanto o corpo da minha avó era velado na sala da sua casa na pequena cidade do interior. Nunca mais tive essa oportunidade: será que era um sonho? Acredito que não. Dessa memória, salta o contraste nostálgico com o céu que os meus olhos enxergam hoje, inebriado por uma poluição luminosa. Eu vi estrelas cadentes e elas são responsáveis por me fazer entender que tem algo errado com o que eu posso ver do céu hoje. O mesmo manto estrelado permanece, porém, a sua revelação é filosoficamente catastrófica. Aos antigos, revelava a profundidade do conhecimento e o sentido da vida na Terra, aos contemporâneos, o céu entorpecido por seu manto opaco de luzes artificiais, revela que o fim está próximo. Talvez seja um sinal da queda do céu. Caiu dos nossos olhos e quase não se pode ver. Não pude mais ver um pedaço de rocha ou de poeira espacial adentrar a atmosfera e explodir em fogo luminoso. O corpo inerte e frio da minha avó, na sala, destoava com o movimento candente da chuva de meteoros e meteoritos daquele dia. Na prisão da atmosfera artificial da cidade grande quase não se vê estrelas fixas, quanto mais estrelas cadentes. Morremos! Seria possível olhar o céu e perceber filosofia? Para os antigos, certamente. Poucos ainda hoje percebem. Nós, os modernos (ou seja lá que tipo de outra coisa estranha somos) é que perdemos, por alguma força pretensamente filosófica, a conexão com as luzes do universo. Tal força deveria nos inspirar a pensar de maneira harmônica e não tão distante a ponto de nos levar com destino certo a um fim catastrófico. Se olhássemos novamente para o céu com a intenção de inspiração reflexiva, o que ele nos revelaria ao pensamento? Talvez pouquíssima coisa, porque quase não o vemos. Olhos mortos, como os da minha avó. Olhar para o céu no meio da noite, na perspectiva da cidade grande, é ver apenas algumas estrelas esparsas e não os grandes sistemas astrológicos que os antigos viam — e de que talvez os interioranos de hoje se aproximem.

Luzes brilhantes, rastros de estrelas e de galáxias e a mancha branca da Via Láctea, que conduziram o pensar por caminhos que conhecemos em partes, pelos textos, mas não por experiência. O céu agora é ofuscado por uma luminosidade artificial que nos impede de ver as estrelas. Até isso já nos foi tirado em um curto espaço de tempo: duzentos anos, talvez menos, nos separam de uma visão filosófica do universo. Um homem, aquele famoso do cogito, se recusou a olhar para as estrelas no céu pleno a que tinha acesso e se trancou dentro de um quarto onde criou uma teoria racionalista. Observando a luz de uma vela, preso dentro de quatro paredes, aquecido por uma lareira, encerrou o ser humano dentro de si mesmo, em uma prisão apartada da natureza. Cindiu o ser humano do cosmos quando deixou de olhar para o alto e decidiu procurar o conhecimento somente dentro de si. Rompeu com a sabedoria ancestral que se nutria no brilho dos astros ou nas ranhuras orgânicas de uma folha recém caída de seu galho na árvore esplendorosa. Como ele pôde afirmar que somos apenas pensamentos carregando uma massa corpórea, se essa mesma massa está nascendo e morrendo o tempo todo? Se, naquele dia frio, tivesse ele se aproximado de uma janela por tempo suficiente para observar uma estrela, perceberia o vidro se ofuscar pelo calor, inerente a quem tem um corpo vivo, indissolúvel da condição pensante. Um corpo vivo, fogo fulgurante. Talvez tivesse concluído que aquela luz estelar que se ofuscara no vidro embaciado, também já era apenas um reflexo morto, que viajou anos incontáveis no espaço até atingir os seus olhos, depois de romper as barreiras da atmosfera viva desse invólucro que nos mantém animados e pensantes. Com um salto de quase dois mil anos ao passado, é possível perceber o comportamento dos antípodas cartesianos. Antípodas porque são o inverso, o extremo oposto! No mesmo período da existência de gigantes, como Parmênides (530 AEC), Heráclito (500 AEC) e Empédocles (495 AEC), existiu Sidarta (563 AEC), que buscou o conhecimento na contemplação. Para a sua atitude meditativa não escolheu o ambiente fechado de seu quarto no palácio, mas buscou a conexão com a mãe terra, com a natureza plena de significado.

Certamente sentia o cheiro das flores, ouvia o ruído das folhas tocando umas às outras com o impulso do vento, sentia no seu rosto o frescor dessa brisa e percebia o brilho do sol. Debaixo de si, as raízes da árvore que escolhera, em profunda conexão com o todo indissolúvel; fluía ao seu redor a energia vibrante de uma sabedoria jamais recolhida em si mesma, pulsante e contagiante: iluminou-se. O silêncio não foi o contínuo posterior, apesar de ser o mote de sua pregação. Talvez orientado pela natureza que o inebriou, partilhou com todos aquilo que o tocou. Muitos outros vieram atrás dele e o seguem até hoje. Mas no aqui e agora, foco dos seguidores do monge, o brilho das estrelas, o deslumbramento da imagem do cosmos cintilante ofuscou-se pelo brilho — com o perdão da palavra de baixo calão — instagramável das paisagens que refletem apenas a luz azul de telas algemas. Presos no virtual, naquilo que de fato não existe, pura mentira, vamos nos tornando incapazes de criar, de pensar, de discutir, de gozar e fluir de uma sabedoria incessante, plena mudança. Há uma barreira, um muro, criado para encerrar dentro de si aqueles que querem se proteger. É um quarto fechado, com vela e lareira: não tem céu brilhante. Há um corpo na sala. Acabou, o céu já caiu para muitos.

Palavras-chave: imagem de pensamento; filosofia; cosmos; modernidade; estética