Literatura Brasileira
O Balanço
Quando tinha cinco anos, a melhor coisa que existia em minha vida era um balanço vermelho.
Ele não era novo. A tinta já estava descascando em alguns lugares, e as correntes rangiam sempre que me balançava mais alto. Ainda assim, para mim, parecia um brinquedo saído de um parque de verdade. Os vizinhos que moravam algumas casas adiante estavam se mudando e decidiram deixar o pequeno parquinho para mim. Havia um escorregador azul, dois balanços e uma estrutura de metal já um pouco enferrujada. Os adultos agradeceram a doação com a praticidade de quem recebe apenas mais um objeto usado. Eu, porém, enxerguei aquilo como um tesouro.
Morava numa casa simples de madeira, 36 metros quadrados divididos em 5 pequenos cômodos. Os brinquedos cabiam numa caixa de sapatos. As roupas passavam de primo para primo até perderem a cor original. Quando o parquinho chegou, senti uma felicidade tão grande que passei a acordar pensando nele.
O parquinho foi a primeira coisa que pareceu realmente minha.
O único problema era o lugar onde ele foi instalado.
Um dos poucos lugares planos do terreno era em frente à casa do meu tio, que quase sempre estava em casa, saía apenas quando precisava reabastecer o estoque de bebida.
Na minha memória, ele parecia sempre estar na porta, parado em pé, com uma garrafa na mão e um olhar que me deixava desconfortável sem que soubesse explicar o motivo. As crianças normalmente conseguem perceber quando algo não está certo muito antes de compreenderem por quê. Sentia isso sempre que ele aparecia.
Ele morava sozinho. Era irmão do meu pai e passava os dias bebendo. Quando era pequena, não sabia o que significava ser alcoólatra. Sabia apenas que ele sempre tinha olhos vermelhos, falava alto e carregava um cheiro que era uma mistura de álcool, suor e alguma coisa estragada.
Eu não gostava daquele cheiro. Mas gostava do balanço. Então continuava indo brincar.
No começo, não sabia explicar por que sentia medo quando ele aparecia na porta.
Era um medo diferente dos medos normais.
Não era medo de escuro, nem medo de cachorro bravo.
Era um medo que fazia meu estômago doer.
Um medo que eu não conseguia nomear.
Quando ele surgia, eu diminuía a velocidade do balanço.
Quando ele falava, eu olhava para o chão fingindo não ouvir.
Quando ele ria, eu sentia vontade de correr.
E corria.
Muitas vezes voltava do parquinho diretamente para o banheiro.
Então vomitava.
Isso aconteceu tantas vezes que virou rotina.
Meus pais não estavam em casa, trabalhavam em uns quatro empregos para continuarmos pobres. Ficavam sabendo apenas mais tarde, quando a avó dizia que estava com o estômago fraco. O avô resmungava que criança inventava doença por qualquer motivo. Ninguém parecia enxergar que aquilo acontecia quase sempre depois que eu passava algum tempo perto do tio.
Na época, eu também não entendia. Sabia apenas que sentia vergonha. Uma vergonha enorme, sem forma e sem explicação.
Às vezes tentava dizer aos adultos que não gostava de ficar perto dele. Outras vezes dizia que ele fazia coisas estranhas. Mas os adultos respondiam de maneira vaga, como se não quisessem compreender completamente o que estavam ouvindo.
Diziam para eu não ficar perto da casa dele, diziam para brincar em outro lugar, diziam para ignorá-lo.
Mas ninguém perguntava a pergunta certa. Ninguém perguntava por quê.
Crianças não possuem vocabulário para certas tragédias.
A resposta parecia simples para quem era adulto.
Mas eu era uma menina de cinco anos.
E o balanço estava lá.
Quando tento recordar a própria infância, percebo como os adultos costumam subestimar a força dos desejos infantis. Para eles, tratava-se apenas de um brinquedo. Para mim, era o centro do mundo. Pedir que abandonasse aquele lugar era como pedir que abrisse mão da única parte realmente feliz dos meus dias.
Era pedir para uma criança escolher entre a própria infância e a própria segurança.
Eu não sabia fazer essa escolha.
Nenhuma criança sabe.
Por isso continuava voltando.
O que mais a machucava não era apenas a presença do tio. Era a solidão.
Eu tinha dificuldade para fazer amigos. Era uma criança tímida, daquelas que observam antes de falar e permanecem quietas quando as outras correm em grupo. Durante muito tempo, o balanço foi meu único companheiro. Sentava-me nele e imaginava histórias. Fingindo voar, inventava castelos, cidades, animais fantásticos e vidas completamente diferentes da minha.
Por isso, quando duas colegas da minha escolinha aceitaram brincar em casa, acreditei que alguma coisa maravilhosa estava acontecendo.
Moravam algumas ruas adiante.
Fomos brincar no parquinho, afinal, era a única opção de diversão que eu tinha para oferecer.
Naquele dia senti uma alegria que não cabia dentro do peito. Mostrei o balanço com orgulho. Inventei brincadeiras que pudessem ser brincadas com mais de uma pessoa.
Corremos. Rimos.
Por algumas horas acreditei que finalmente seria uma criança igual às outras.
Então o tio apareceu. Como sempre aparecia.
Como uma sombra.
Como uma doença.
Percebi as expressões das meninas mudarem. Vi o desconforto. O constrangimento. O medo.
Pela primeira vez, vi alguém reagir da mesma forma que eu. E, apesar disso, naquela noite, fui dormir acreditando que finalmente tinha amigas.
As duas nunca voltaram.
Na época não compreendi o motivo. Apenas senti a ausência.
Acreditei que a culpa era minha.
Talvez tivesse sido chata.
Talvez tivesse falado demais.
Talvez não fosse interessante.
Crianças costumam culpar a si mesmas por coisas que jamais deveriam carregar.
Só muitos anos depois percebi que as meninas provavelmente contaram aos pais o que haviam visto naquele terreno. E que os pais, ao contrário dos adultos da minha família, fizeram aquilo que qualquer responsável deveria fazer: impediram que voltassem.
Significava que pessoas de fora haviam conseguido enxergar o perigo mais rapidamente do que aqueles que conviviam com ele todos os dias.
Conforme crescia, as lembranças se tornavam mais claras. Algumas cenas que antes pareciam incompreensíveis começaram a ganhar significado. Frases esquecidas voltaram à memória. Gestos aparentemente sem importância passaram a fazer sentido.
Foi como montar um quebra-cabeça durante anos sem saber qual imagem estava tentando formar.
Quando a figura finalmente apareceu, desejei não ter entendido.
Porque compreender significava aceitar que aquilo realmente havia acontecido.
Mas significava também aceitar algo ainda mais doloroso: os sinais sempre estiveram ali.
O medo.
Os vômitos.
As tentativas infantis de contar.
As mudanças de assunto.
Os olhares desviados.
O silêncio.
Passei muito tempo acreditando que ninguém tinha percebido.
Mas algumas pessoas talvez tivessem percebido mais do que admitiam.
Essa descoberta me acompanhou até a vida adulta.
O mais doloroso não foi descobrir o que meu tio havia feito. Foi descobrir que talvez não tivesse sido a única pessoa que sabia.
Às vezes o silêncio não nasce da ignorância. Às vezes nasce da covardia.
Essa descoberta foi mais difícil de engolir do que qualquer lembrança.
Porque monstros existem.
Mas espera-se que existam.
O que uma criança não espera é descobrir que as pessoas encarregadas de protegê-la aprenderam a conviver com o monstro.
Meu tio envelheceu. O álcool foi destruindo seu corpo. Uma decadência lenta. Vieram as limitações, as internações e, por fim, a diabetes que avançava sem pressa, corroendo sua saúde da mesma forma que o tempo havia corroído o velho parquinho.
Acompanhei de perto, pois ainda morava no mesmo lugar.
Assistindo ao desaparecimento gradual de uma sombra que me acompanhara por toda a vida.
Sem piedade. Sem culpa. Sem alegria também.
A verdade é que a vingança nunca chegou.
Nenhuma doença devolve uma infância. Nenhuma amputação apaga uma memória. Nenhuma morte corrige uma injustiça.
Ainda assim, havia algo estranhamente justo em vê-lo diminuir.
Hoje, o balanço já não existe. O escorregador foi jogado no fundo do terreno.
Mas a memória nem sempre acompanha a paisagem.
Quando olho para aquele espaço vazio onde ficava o parquinho, percebo que sinto falta do balanço, mas não da infância.
Algumas coisas não foram feitas para durar.
Outras não foram feitas para ser perdoadas.
Durante muito tempo pensei que sobreviver significava deixar para trás.
Hoje sei que sobreviver também é olhar para trás.
É recusar o silêncio.
É chamar as coisas pelo nome.
É parar e descer do balanço, que ainda rangia dentro de mim.
É só então que a história termina.