Ensaio filosófico
Portas para Marte
Estudante de Filosofia da Universidade Federal do Paraná — UFPR
Em uma rua, olho para os lados: há inúmeras portas, mas não as residências que deveriam acompanhá-las. Apenas portas. Ando e abro algumas delas. Em cada uma, encontro apenas o retrato que o portal é capaz de oferecer. No horizonte de uma delas, a realidade se molda: marinheiros de grandes naves lutam para recuperar seus mortos caídos no mar; cuidam para recuperá-los, para que continuem com os repastos fúnebres. Cultos dos mortos que se mantêm com o fogo familiar. Aqueles corpos que não são recuperados vagam penados. Ao longe, vejo um lar; diante do fogo, pai e filho conversam; um ritual é ensinado. Ao pequeno, o fogo fala — avôs e pais ali residem; em comunhão vivem. Fecho a porta e sigo em frente; o céu em cima de minha cabeça é estrelado, Plutão e Saturno dançam sua fúnebre composição. Em frente a outra porta, abro-a; fito servos de Ares: eles limpam o campo da guerra, saqueiam os corpos, enforcam os desgarrados e matam os que sobreviveram. Vejo um guerreiro de vermelho em frente a uma mesa branca ainda posta. Havia pão, frutas, moedas, cartas espalhadas, restos de uma abundância que, minutos antes, talvez parecesse eterna. O nobre de vermelho segura sua espada, sem desempenhá-la; seu rosto mostra o horror do que vê. No canto direito, dedos pálidos feriam as cordas de um alaúde, como se a melodia pudesse erguer uma muralha contra o horror. A jovem, inclinada sobre o instrumento, parecia não compreender que já não tocava para os vivos. Ao seu lado, a outra mulher mantinha o livro aberto, mas as palavras haviam perdido o sentido; nenhuma oração chegaria a tempo, nenhum verso teria força suficiente para deter o avanço dos ossos. Um homem tombava sobre o tabuleiro, as cartas abertas diante dele, ainda marcadas pelo acaso. Outro erguia um bastão contra os servos de Ares, mas seu gesto já pertencia à derrota. O riso, se houvera, ficara preso em alguma garganta. O vinho derramado confundia-se com sangue. Há fogo, gritos e sinos tocando; fecho essa porta, sinto em mim irradiando o próprio Ares satisfeito. O que é essa rua? Por que estou aqui?” Continuo sem respostas então sigo em frente. No horizonte, Marte me espera. À minha esquerda, mais uma porta; esta, semiaberta. Escuto um som, é um movimento, um peso repetido e crescente, me puxa para frente da porta, cada nota avança e recua, me força a abri-la para que veja sua imagem.